Política interna de IA generativa para documentos confidenciais: o que incluir

Em quase todas as organizações já há quem cole um contrato num chatbot para obter um resumo, carregue uma ata para extrair as deliberações ou peça a um assistente que redija a resposta a uma reclamação a partir do processo. Já não se discute se a IA generativa é usada; discute-se se é usada com regras. Sem uma política escrita, cada pessoa decide sozinha que ferramenta usa, com que conta e que informação lhe entrega, e a organização deixa de saber onde foram parar os seus documentos.
Este artigo propõe a estrutura de uma política interna prática para documentos com dados pessoais ou informação confidencial: como classificar a informação, o que anonimizar antes de usar a IA, como aprovar ferramentas e o que registar.
Porque é necessária uma política escrita
Introduzir dados pessoais numa ferramenta de IA é um tratamento sujeito ao RGPD e à Lei n.º 58/2019: exige fundamento de licitude, respeito pela minimização e pela limitação das finalidades e, se o fornecedor tratar os dados por conta da organização, um contrato de subcontratação (art. 28.º). Com categorias especiais de dados, como os de saúde, a exigência sobe, e uma utilização em larga escala pode obrigar a uma avaliação de impacto. Somam-se o sigilo profissional, a confidencialidade contratual e os segredos comerciais.
O Regulamento (UE) 2024/1689 sobre IA obriga, desde fevereiro de 2025, quem implanta sistemas de IA a adotar medidas que assegurem um nível suficiente de literacia em IA do seu pessoal (art. 4.º). A CNPD tem acompanhado o tema ao nível europeu e, em 2026, reforçou com a AEPD espanhola a cooperação sobre os desafios da IA na proteção de dados. Para orientação prática, o Comité Europeu para a Proteção de Dados publicou em 2025 um relatório sobre riscos de privacidade e medidas de mitigação em grandes modelos de linguagem, útil para avaliar ferramentas.
Passo 1: classificar a informação
A regra central da política não deve ser «que ferramenta», mas «que informação». Uma matriz simples resolve a maior parte das dúvidas do dia a dia:
| Tipo de informação | Exemplo | IA pública gratuita | IA aprovada pela organização |
|---|---|---|---|
| Pública | Legislação, comunicados publicados | Permitido | Permitido |
| Interna sem dados pessoais | Procedimentos internos, minutas | Não | Permitido |
| Confidencial | Propostas, estratégia, pareceres jurídicos | Não | Só se a ferramenta estiver aprovada para esse nível |
| Dados pessoais | Processos, salários, e-mails de clientes | Não | Anonimizar ou pseudonimizar antes; exceções aprovadas pelo EPD |
| Categorias especiais | Relatórios clínicos, dados de menores, condenações | Não | Só anonimizados, salvo caso de uso avaliado |
Passo 2: anonimizar antes de a IA ver o documento
A medida mais eficaz é que os dados pessoais nunca cheguem à ferramenta. Para a maioria das tarefas (resumir, traduzir, extrair cláusulas, redigir um rascunho) o modelo não precisa de saber o nome da pessoa nem o seu NIF. Antes de carregar um documento, a política deve exigir que se eliminem ou substituam:
- Nomes, assinaturas e cargos que identifiquem uma pessoa concreta.
- Identificadores: número de cartão de cidadão, NIF, NISS, número de utente, IBAN, matrículas, números de processo.
- Contactos: moradas, telefones, endereços de e-mail.
- Datas e montantes que, combinados, permitam reconhecer alguém (por exemplo, a data exata de um acidente numa freguesia pequena).
- Dados de saúde, de menores e relativos a condenações penais.
- Metadados do ficheiro: autor, comentários, controlo de alterações, caminhos internos.
Há duas técnicas úteis. A anonimização elimina o dado de forma irreversível e serve quando o resultado da IA não precisa de voltar a ser associado às pessoas. A pseudonimização substitui cada dado por um código coerente («PESSOA_1», «EMPRESA_2»): o modelo percebe quem é quem e a organização pode depois reverter a substituição com a sua tabela de correspondência. Atenção: para quem detém a tabela, o documento pseudonimizado continua a ser um dado pessoal, pelo que não torna aceitável uma ferramenta não aprovada. Saiba mais sobre a pseudonimização de documentos.
Passo 3: aprovar ferramentas com critérios claros
A política deve listar as ferramentas aprovadas, indicar o nível de informação autorizado para cada uma e proibir contas pessoais para fins profissionais. Antes de aprovar uma ferramenta, verifique:
Critérios de aprovação de uma ferramenta de IA
- Contrato de subcontratação assinado e condições profissionais, não as de consumidor.
- Compromisso de não treinar modelos com os seus dados, ou opção desativável ao nível da organização.
- Local do tratamento e garantias para transferências para fora da UE.
- Prazo de conservação das conversas e ficheiros carregados, e possibilidade de os apagar.
- Gestão centralizada de contas (autenticação única, entradas e saídas de pessoal).
- Registos de atividade acessíveis à organização.
- Para informação sensível: preferência por sistemas executados em ambientes controlados pela organização.
Chamar uma API externa ou executar o modelo em infraestrutura própria, ou num fornecedor europeu sob contrato, altera muito o perfil de risco; comparamos as opções em IA local ou IA na nuvem.
Passo 4: registos, revisão humana e incidentes
Uma política sem rastreabilidade é uma declaração de intenções. Defina o que se regista e durante quanto tempo:
- Inventário de casos de uso: tarefa, ferramenta, tipo de informação, responsável e se foi necessária avaliação de impacto.
- Registo de utilização: quem usou que ferramenta, quando e com que classe de informação. Guardar cada pedido raramente é necessário e muitas vezes é desaconselhável.
- Revisão humana obrigatória de qualquer resultado enviado para o exterior, publicado ou usado para decidir sobre uma pessoa. A IA propõe; uma pessoa decide e assina.
- Procedimento de incidentes: o que fazer se um documento com dados pessoais for carregado por engano numa ferramenta não aprovada, incluindo a avaliação de uma eventual violação a notificar à CNPD em 72 horas.
Passo 5: formação e revisão periódica
Uma política tem de ser explicada, não apenas publicada na intranet. Uma sessão curta com exemplos da própria organização (o que se pode colar e o que não, como anonimizar um documento em dois minutos, o que fazer depois de um erro) vale mais do que dez páginas de regras. Reveja a política pelo menos uma vez por ano e sempre que aprovar uma nova ferramenta, porque os fornecedores alteram frequentemente as suas condições.
Onde entra o Anonimatum
O Anonimatum torna o passo 2 simples: deteta nomes, identificadores, moradas, montantes, matrículas e outros dados com IA própria executada em servidores na União Europeia, sem enviar o texto para APIs externas de modelos de linguagem, e devolve o documento anonimizado ou pseudonimizado no formato original (PDF, Word, Excel, PowerPoint ou e-mail). Na pseudonimização, a tabela de substituições é guardada cifrada e permite reverter o resultado. Veja como anonimizar documentos antes de usar o ChatGPT ou outra IA.
Perguntas frequentes
Basta proibir o ChatGPT e ferramentas semelhantes?
Raramente. A utilização passa para contas pessoais e perde-se todo o controlo. Funciona melhor disponibilizar ferramentas aprovadas com regras claras sobre a informação permitida em cada uma.
Um documento pseudonimizado pode ser carregado em qualquer IA?
Não. Para a organização que guarda a tabela de correspondência, continua a ser dado pessoal. O risco baixa muito, mas a ferramenta tem de estar aprovada.
É preciso uma avaliação de impacto para usar IA generativa?
Depende do caso de uso. Tratamentos em larga escala de dados sensíveis ou decisões sobre pessoas tornam-na provável. Trabalhar apenas com documentos previamente anonimizados reduz bastante o risco.
